quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Finalmente encontrámos o Joel, que também quis juntar-se "à nossa Tripulação".


"Marinheiros de Água Doce"

Quem ao passar na rua não ouviu esta expressão popular acima expressa? Pois é! Não íamos ao mar como qualquer marinheiro no exercício da sua actividade náutica, e como o nosso fardamento era idêntico ao de "marujo", razão pela qual a manifestação carinhosa desta expressão à nossa passagem.
Bom! Após esta pequena introdução, em jeito de brincadeira, apresento-me para quem não me conheceu na foto:
Entrei para a Fragata em 1 de Abril de 1963 (?), com 11 anos de idade - só em Julho faço anos -, foi-me atribuído o nº 15. No mesmo dia que me apresentei na Fragata constaram que me encontrava bastante doente, mandaram-me apresentar no Posto Policlínico do Corpo Santo em Lisboa. Assim, regressei a Lisboa, na vedeta da tarde, para ser observado pelo médico de serviço do Posto Clínico. Após a observação fui enviado para  Liga dos Amigos dos Hospitais, onde fiquei internado.
A 3 de Abril, do mesmo ano, a Fragata D. Fernando foi vítima de um violento incêndio a bordo deixando-a quase totalmente destruída. Encontrando-me na altura do fogo internado na Liga dos Hospitais, assim não presenciei nem fui vítima daquele lamentável incidente. Quando voltei à instituição passados alguns meses, após internamento, fui apresentar-me na Capitania do Porto de Setúbal onde se encontrava a Obra Social da Fragata D. Fernando em situação provisória.
Assim, já na instituição em Setúbal aí frequentei as aulas da 4ª Classe - Instrução Primária -, e, em simultâneo, pela mão do seu instrutor cabo "Borracha", a ter aulas com o instrumento "caixa" e a fazer parte da Fanfarra da Fragata D. Fernando. A Fanfarra era muita acarinhada pela população de Setúbal e muito solicitada para as festas religiosas com grandes desfiles na Avenida Luísa Tody, que orgulho sentíamos em tocar na fanfarra e os outros alunos também orgulhosos da sua fanfarra a acompanhava no passeio junto da população que aplaudia e pedia esclarecimentos.
Sinto grande orgulho em ter sido aluno da Fragata D. Fernando II e Glória, ainda hoje!
Não pelas razões quer m levaram àquela instituição, claro! Mas isso foi um grande trauma que devastou a minha família mas que o tempo ajudou a sarar. Assim, pegando na Instrução Primária aí completei com distinção, juntamente com outro aluno e amigo de nome Alegria.
Após a conclusão da Instrução Primária fui para o MNF - Movimento Nacional Feminino, em Junho de 1963, a aguardar idade para poder estudar à noite e ingressar nas Organizações Administrativas das Pescas. Aí encontrei alunos mais velhos que trabalhavam no MNF, com direito a almoço e jantar no Refeitório da Junqueira e pernoitar na Escola de Pesca de Pedrouços, assim como alunos que iam para os Estaleiros da Parry & Son, num total de 12 alunos na época.
Em 1966, já a estudar à noite ingressei nas Organizações das Pescas no Grémio A.P. Bacalhau, tendo sido colocado no Gabinete do Delegado do Governo dos Organismos das Pescas (Sr. Almirante Henrique Tenreiro) como groome/paquete, neste local já tinham passado companheiros da Fragata dos primeiros alunos (1940).
Estudando sempre à noite na Escola Comercial Veiga Beirão e ICL - Instituto Comecial de Lisboa (hoje ISCAL) ingressei no serviço militar até 1974, como miliciano no Ministério do Exército - Direcção do Serviço de Pessoal e Gabinete de sua Excelência o Ministro do Exército, fui para este lugar pela excelente classificação obtida na especialidade - Serviço de Administração Militar (SAM).
Em 1974, fazia parte dos Quadros de Pessoal do Grémio A.P. Bacalhau, regressei ao mesmo e com a sua extinção (Organismos Corporativos) fui colocado na CRCB - Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau, onde me mantive até à sua extinção (1986). Após a extinção da CRCB fui convidado a assumir o cargo de responsável de abastecimento de bacalhau, peixe congelado e marisco para as Beiras e Trás-os-Montes com entreposto na cidade da Guarda, com capacidade para 300 toneladas operacionais nas CRCB, SA - Companhias Reunidas de Congelados e Bacalhau, SA (capital estatal).
Em 1990, fui convidado para ir para o GEPP - Gabinete de Estudos e Planeamento das Pescas, como técnico-superior, onde permaneci durante dois anos até pedir a passagem à reforma da Função Pública.
Em 1993, como consultor de comercialização de pescado (importação) exerci consultadoria com empresa própria a diversas empresas do ramo de pescado congelado e bacalhau.
Em 2000, por motivos de doença fui obrigado a restingir a minha actividade profissional.
Estou reformado da Função Pública, sou TOC por formação (...)
Com orgulho de ter pertencido a uma instituição - Fragata D. Fernando II e Glória/Obra Social da Fragata D. Fernando.
Envio forte abraço para todos os amigos  companheiros

Joel Costa Inácio
(ex-aluno nº 15 - 1963-1964)

Foto 1 e 2: O Joel fardado a rigor, e no Jardim das Janelas Verdes (o terceiro a contar da esquerda) na companhia do Braz, "Alfaçe", "Moçambique", Paulo ("Sapateiro"), João Borrego e "Fanã". Lisboa 1966.  

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Crónica de umas férias ao Sul

 
Foto1: Na foto estão o "Albufeira", "Alcantarilha", Braz, Marcelino e Grifo.
Foto 2: Foto de grupo dos ex-alunos e familiares.
Foto 3: Da esquerda para a direita: "Alcantarilha", Grifo, Braz, Quintino, "João Toureiro", josé Figueiras, Marcelino e "Albufeira".
Foto 4: "Micas" e um amigo, José Figueiras e o Quintino

Foi sempre um hábito que adquiri desde muito jovem, escrever as minhas experiências ao longo da minha existência, registando no papel memórias que foram moldando a minha personalidade, cimentando uma convivência salutar entre os mais diversos amigos que tenho o privilégio de ter de norte a sul. "Crónica de uma férias ao Sul" tem qualquer uma dessas finalidades.
Conforme o prometido, lá se realizou a assada de peixe no Bar da Lota em Lagos, no dia 27 de Agosto, que tinha como objectivo juntar os poucos ex-alunos da Fragata D. Fernando II e Glória residentes no Algarve, ou outros que ali eventualmente estivessem de férias.
Responderam à "chamada" nove ex-alunos na companhia dos seus familiares e amigos, somando na totalidade cerca de 22 pessoas.
Contando comigo, "deram à costa" o Grifo (1) (organizador do encontro) "João Toureiro" (2), "Micas" (3), "Luís Fragata" (4), "Albufeira" (5), "Portimão" (6), Quintino (7) e o "Alcantarilha" (8), este último que já não o via à cerca de 43 anos, sendo para ambos uma enorme satisfação nos termos encontrado de novo, encontro selado com um forte abraço.
O almoço decorreu em tom animado mas com algumas reclamações em relação à qualidade da confecção (que foi melhorada depois de alguns reparos) não deixando de ser mais importante a confraternização que se gerou entre todos. Durante o mesmo foram sorteados um enorme búzio (oferta do Grifo) que saíu ao Marcelino, e um CD que gravei com as fotos e os vídeos do IV Encontro Nacional dos Antigos Alunos da Fragata D. Fernando II e Glória realizado em cacilhas no dia 02 de Abril de 2011, que foi entregue ao "Micas".
Ainda não satisfeitos do repasto, alguns de nós, a convite do Marcelino (que andava felicíssimo e radiante com o nosso encontro) ainda fomos para casa dele petiscar e beber mais uns copos, tendo anoite acabado de uma forma bastante agradável para todos os nela participaram.
Não queria de deixar de salientar que durante estas minhas férias em Portimão, a forma generosa como eu e a minha família fomos recebidos pelo "Albufeira" que, mais parecendo em "cicerone da Junta de Turismo" nos levou a conhecer alguns recantos daquela cidade e das suas praias, nomeadamente o Museu de Portimão onde pudemos apreciar uma exposição da World Press Photo com as fotos premiadas do ano de 2010, levando-nos a conhecer Mexilhoeira Grande (onde fomos ter com o Grifo que tinha prometido oferecer uns búzios à minha filha Mafalda, e que aproveitou a oportunidade para nos contar a sua célebre fuga da Fragata) a Praia do Vau e da Torralta (muito mais sossegadas do que a Praia da Rocha) a Vila de Alvor onde fomos visitar um ex-aluno da Fragata mais conhecido por "Alvor" (9) (que não pode ir ao almoço pelos afazeres no seu estabelecimento).
Vistámos também na mesma vila o "Salvador" (10) que naquele momento estava a iscar o aparelho para se fazer ao mar quando o tempo estiver de feição, lamentando não poder também comparecer à "assada de peixe" por estar ocupado na faina da pesca, onde ainda tenta fazer dela o seu ganha-pão para fazer face à sua parca reforma, aproveitando-se da nossa presença para se indignar contra uma recente lei do actual governo, que impõe a todos os pescadores da sua arte o pagamento de um imposto de cento e tal Euros mensais, quer os anzóis tragam ou não peixe.
Não posso também esquecer os dias que o "Albufeira" nos levou a sua casa, onde pudemos saborear uma belíssima massa de peixe confeccionada pela Natalina sua esposa e, num outro dia, uma excelente sardinhada assada no seu terraço (que tem uma brilhante vista sobre a cidade de Portimão e o rio Arade), que terminou regada com um velho "Old Rarity" escoçês de longa data, sempre acompanhado por longas histórias sobre a sua vida passada nas águas revoltas dos vários oceanos, que aquele "velho lobo do mar" nos ia contando como se estivesse a escrever um livro sobre as suas memórias e inspiradas numa das obras de Jack London (11).
Num dos intervalos destas andanças ainda fomos (eu a Odília e a Mafalda) a Pedras D'El Rei (próximo de Tavira) a convite dos meus amigos de Alhos Vedros Edgar Cantante e sua esposa Celeste Cantante, onde saboeámos umas douradas e uns robalos escalados, seguindo todos, após o almoço, para Ayamonte (Espanha) em que os calamares e o camarão foram o "prato do dia", acompanhados pelo "cinismo mercantilista" dos empregados espanhóis do restaurante "Romero" que se limitavam apenas a receber o dinheiro, tendo todos os clientes ali presentes (na generalidade portugueses) que levar para as suas mesas os copos, pratos, guardanapos e respectivos talheres e todo o consumo que se ia fazendo, tendo eles como única preocupação arrecadar os Euros que entravam na caixa registadora.
Apesar de alguns destes insignificantes episódios que não retiraram o fascínio desta convivência, foram de facto umas férias bem diferentes, partilhadas com os amigos, o que foi para mim um privilégio e uma grande datisfação tê-las passado daquela forma.

Carlos Vardasca
(Braz, ex-aluno nº 14)

(1) António Marques Santos Grifo, ex-aluno nº 244
(2) João Eduardo Ribeiro, ex-aluno nº 308
(3) Amílcar José da Silva Ferro, ex-aluno nº 20
(4) Luís Marcelino Paulo José, ex-aluno nº 238
(5) Victor Manuel Gomes Santos, ex-aluno nº 363
(6) José Figueiras, ex-aluno nº 163
(7) José Manuel Quintino Pereira, ex-aluno nº 454
(8) António Jose Santos, ex-aluno nº 124
(9) José Manuel Santana Salvador, ex-aluno nº 108
(10) José António dos Reis Salvador, ex-aluno nº 115
(11) "O Lobo do Mar", exemplar que teve a amabilidade de me oferecer.
 

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Do "Toni da Enxóssia" ao "Cabo Borracha"


Foto: O "Toni da Enxóssia" e o "Cabo Borracha" junto ao edifício da Capitania do Porto de Setúbal.
Quando entrei para a Fragata D. Fernando II e Glória tinha apenas 13 anos de idade, tendo sido muito curta a minha estadia a bordo, uma vez que entrei pelo Portaló no dia 1 e logo no dia 3 de Abril de 1963 a abandonei de uma forma tão trágica, tendo aquela “velha Nau”, última da Índias, sucumbido a um violento incêndio que a destruiu totalmente.
Por esse facto, pouco ou nada conheci sobre o cozinheiro de bordo a quem apelidaram de “Toni da Enxóssia”, mas ainda recordo algumas peripécias que os mais velhos contavam sobre ele.
De onde vem este apelido não se sabe (mas calcula-se) mas contavam os alunos mais antigos que este elemento da guarnição, personagem de estatura baixa, muito gordo e de pés muito largos e redondos, tinha o hábito (e por isso era motivo de chacota) quando na cozinha o calor era insuportável, de se pôr em tronco nu, enquanto e o seu suor corria em cascata pela sua enorme barriga a baixo para dentro das panelas, enquanto confeccionava as refeições:
Éh “Toni da Enxóssia” estás a temperar o nosso tacho com o teu suor? Dizia um dos alunos que passava por ali sempre a correr, pois sabia que logo de seguida voava na sua direcção qualquer utensílio de cozinha que estivesse mais “à mão de semear”, enquanto o resto da malta, que espreitava na escada de acesso ao convés ria disfarçadamente, escondendo-se de imediato num recanto mais próximo ou dentro das baleeiras. Dizia-se também que obrigava os alunos mais novos a meterem-se dentro dos grandes panelões, obrigando-os (aos quais dava o exemplo) a lavá-los com as vassouras de baldear o convés.
Contava-se também que, quando algum oficial o repreendia por o almoço não estar lá muito bom, que no dia seguinte o bife destinado ao mesmo era batido com aqueles pés muito redondos e achatados, vingando-se assim desta forma pela repreensão que dizia ser muito injusta.
Depois do incêndio e quando todos nós fomos transferidos para Setúbal, aí convivi mais de perto com aquele cozinheiro, uma vez que necessitei dos seus conhecimentos para poder ingressar na Marinha Mercante. Com o devido respeito (pois este senhor já deve ter falecido tendo em conta a idade que já tinha naquele tempo) o “Toni da Enxóssia”, pelo que eu pude presenciar, em momentos de tranquilidade era uma pessoa muito dócil e compreensiva, denotando-se nele alguma tristeza interior que dificilmente deixava transparecer, dado que as lágrimas se misturavam com as gotas de suor que continuavam a “fazer de tempero” ao rancho geral.
Ainda hoje me recordo das últimas palavras que me dirigiu, uns dias antes de saber que eu ia embarcar no navio “Benguela”:
Olha lá oh miúdo! Vás para onde fores, nunca tenhas vergonha de dizer que vieste da “Fragata” faz ver a esses gajos que aqui também se fazem bons homens e destemidos “Lobos-do-mar”.
Quanto ao “Cabo Borracha” (que também já deve ter falecido apesar de na altura ser mais novo do que o cozinheiro) responsável pelo Paiol dos Mantimentos e pela Fanfarra, era uma pessoa que pelo seu aspecto mais fechado se dava mais ao respeito, mais disciplinador, não admitindo qualquer tipo de confianças, onde parecia fazer questão de vincar bem as distâncias entre o “Mestre da fanfarra” e o “aprendiz de clarim”. Era esta a impressão que tinha dele, até começar a fazer a tarefa de Faxina à Praça, que de alcofa na mão o acompanhava à Praça de Setúbal para fazer as compras para o rancho dos oficiais.
A forma carinhosa, envolta em alguma elegância com que regateava com as vendedeiras os preços das hortaliças e de outros legumes em cada banca da praça, contrastava de facto com a aspereza e a rudeza com que por vezes tratava os alunos, principalmente os que faziam parte da Fanfarra e que no clarim não “davam uma para a caixa” (como era hábito dizer) e que desafinavam constantemente as notas musicais.
Por outro lado, conheci nele um outro lado mais humano, sempre pronto a ajudar quem dele necessitasse. Recordo que em dada altura, quando a minha mãe com grande sacrifício me mandou dinheiro para ir passar as férias de verão a Santarém e os perdi, foi a ele que recorri, pois já não tinha dinheiro para os transportes. Quando no natal recebi uma determinada verba por ter ganho o primeiro prémio do Concurso dos Presépios e lhe fui pagar o pequeno empréstimo, o “Cabo Borracha” não aceitou o dinheiro dizendo-me:
Olha lá Braz! Se não tivesses que me pagar este dinheiro o que irias fazer com ele? Ao que eu lhe respondi:
Mandava-o para a minha mãe que bem está necessitada dele ao que ele me respondeu de imediato parecendo um pouco emocionado:
Então rapaz! Não percas mais tempo que os Correios estão prestes a fechar.
Ao “Toni da Enxóssia” e ao “Cabo Borracha”, estejam eles onde estiverem e independentemente das características de cada um, aqui fica, passados todos estes anos, esta nossa singela e justa homenagem.
   Carlos Vardasca
08 de Agosto de 2011
(Braz, ex-aluno nº 14)

domingo, 7 de agosto de 2011

Relato da última visita feita à Fragata D. Fernando II e Glória pelo Almirante António Andrade e Silva

Pelo princípio de Abril recebi um telefonema do Almirante Andrade e Silva expressando o seu interesse em visitar a Fragata D. Fernando II e Glória, durante um fim-de-semana.
A visita iria ser realizada acompanhado pela sua família e amigos.
Como era sempre sua preocupação fez questão de referir, mais uma vez, que não me preocupasse, dispensava-me de estar presente pois, tratando-se de um fim-de-semana, não queria incomodar-me.
O nosso conhecimento pessoal já vinha de longe desde os tempos em que, como Capitão de Fragata, tinha estado em diligência na Escola de Fuzileiros e me tinha solicitado, como Oficial Averiguante, apoio técnico para um delicado e complexo Processo de Averiguações, em 1976.
Assim, com os amarelos bem polidos, o convés e demais pavimentos a condizer, e com o pessoal de serviço, o Contra Mestre e eu próprio, fardados a rigor, recebemos naquele Sábado, pouco depois da 10.00h da manhã, um distinto grupo de visitantes.
A comitiva era de cerca de 16 pessoas tendo eu constatado que muitos dos seus elementos tinham sido “Mecenas” da Fragata. Os seus nomes figuravam no respectivo Livro de registo entre as mais de 470 individualidades que tinham contribuído monetariamente para que este navio fosse reconstruído.
A Fragata era a todos eles muito familiar.
Com efeito, o Almirante Andrade e Silva, no seu tradicional e belo veleiro, “O Vadio”, herdado já de seu pai e ainda com os seus filhos muito jovens, costumava rumar ao “Mar da Palha” para aí visitar o que restava da bela Fragata, após o incêndio que a tinha devorado em boa parte naquele dia 3 de Abril de 1963.
A ela atracava a embarcação e os mais novos penetravam no seu interior, ou simplesmente desfrutavam das águas circundantes até à hora do regresso a casa.
Das histórias contadas pelo Almirante aos seus filhos para os motivar para o passeio, constavam as referências à “Carreira da Índia” e ao local (Damão) onde a Fragata havia sido construída e daí que o mais novo, o Tiago, confundido com tantas referências históricas, e ajudado pela sua fértil imaginação de criança, tivesse chegado a pensar que àquele longínquo território já tinha ido.
Muitos anos mais tarde, toda a família tinha feito a bordo a viagem de Aveiro para o Alfeite, após terem terminado os trabalhos nos estaleiros da Ria Marine.
Um dos mais novos da comitiva visitante, o neto, Tomás Andrade e Silva, agora com dez anos de idade, tinha sido feito “Mecenas” 15 dias após ter nascido.
A reconstrução deste navio tinha sido e continuava a ser entre os Projectos sonhados e levados a bom termo pelo Almirante, talvez o mais querido e mais desejado mas nem por isso o mais fácil de concretizar, como é sabido.
Enquanto percorríamos as diferentes partes do navio, o Senhor Almirante ia descrevendo em pormenor e com visível agrado, a proveniência de cada um dos objectos e a forma como os tinha conseguido obter.
Muitas das peças, nomeadamente da Sala de Jantar, Sala de Estar e Camarote do Comandante, tinham sido oferecidas por pessoas da sua família ou amigos muito chegados.
Os copos em cristal, os guardanapos e respectivas argolas em prata, as toalhas de linho bordadas, os livros antigos da biblioteca, o mobiliário, tudo ou quase tudo estava intimamente ligado ao Almirante Andrade e Silva.
Eu limitava-me a ouvir com toda a atenção as suas memórias e explicações, com receio de perder em algum momento aquelas preciosas referências.
Descendo à Coberta foi a vez do filho Tiago recordar que as feições de um dos manequins da Sala de Oficiais eram decalcadas das suas e que a figura da única mulher a bordo tinha as feições da sua irmã, a Sofia.
Um dos momentos mais interessantes e curiosos estava no entanto para chegar pois aproximávamo-nos da enfermaria e do manequim do “Médico” de bordo cujas feições sempre me tinham parecido familiares.
O Senhor Almirante surpreendeu-me perguntando-me se era possível tirar uma fotografia ao lado daquele manequim; claro que de imediato dei ordens para abrirem a placa de vidro que protege aquele espaço museológico e, como o manequim ostenta uns óculos redondos, à época, perguntei-lhe se não queria colocar também ele um antigo “Pince-nez” .
O Almirante com toda a sua jovialidade “alinhou” na brincadeira e, usando o velho “Pince-nez”, que tinha sido trazido à nossa presença num ápice, colocou-se ao lado do manequim imitando a sua atitude gestual para uma fotografia tirada pelo seu filho e que, para além de imperdível, me desvendou o mistério, a cara do manequim era exactamente a cara do Senhor Almirante. Até ali ele tinha deixado a sua marca, tendo-se sujeitado a uma penosa acção de cópia da sua face para a realização do respectivo molde.
Quando subimos ao convés para terminar a visita, o Senhor Almirante abeirou-se do Mastro Grande e chamando o seu neto Tomás disse-lhe: “ Tomás leia o que está escrito nesta placa” e o Tomás passou a ler pausadamente -Ao Almirante António Manuel de Andrade e Silva homenagem pelo sonho que tornou realidade nesta fragata restaurada - Abril 1998 - Marinha de Guerra Portuguesa
Todos nós estávamos emocionados. Era por assim dizer uma passagem de testemunho emocional e afectivo em relação a uma obra que lhe havia sido especialmente cara.
O Almirante ficou então imóvel. Seria apenas a emoção do momento?
Talvez tenha sido, também. O certo é que de seguida confessou que uma vertigem o tinha acometido. A debilidade física causada pelos muitos tratamentos médicos a que se tinha vindo a sujeitar e talvez as emoções vividas naquela manhã, apareciam neste momento a toldar um pouco o final da visita.
Despediu-se de nós militares no fim da prancha tendo-se para tal libertado dos braços dos familiares que o amparavam.
Ali estava ele Marinheiro, como sempre, a responder, apesar do seu mau estar, ao cumprimento de despedida.
Uma hora depois telefonou-me a agradecer a visita e a dizer-me que não me preocupasse pois o seu estado de saúde tinha melhorado.
Infelizmente, um mês e meio depois de se ter despedido deste seu sonho, despedia-se também da vida, deixando em todos nós um grande sentimento de perda.
Num calendário de bordo, na parte museológica, passou a figurar uma data, 29 de Maio, para que não nos esqueçamos do dia em que partiu para navegar naquele outro mar distante na viagem que agora iniciou…
Sei que encontrará bons ventos e mar de feição. Até sempre.
(A família e todos os seus amigos encontrarão decerto consolo na memória que perdura… a de um grande Senhor, grande Marinheiro e invulgar ser humano, com quem tivemos o privilégio e a honra de conviver).
José António de Oliveira e Abreu
Capitão de Mar e Guerra (Fuzileiro)
Actual Comandante da
Fragata D. Fernando II e Glória
2008

sábado, 30 de julho de 2011

Adeus, até Setembro!

Foto 1 e 2: Aspecto de Sala durante o almoço.

Foto 3: (Da esquerda para a direita) A esposa do José Alves, José Alves, Braz, António (de óculos escuros) três companheiros da SNAB, António Carvalho e o Augusto Gomes. Quem tirou a foto foi o Joaquim Lopes.
Como já é do vosso conhecimento, alguns amigos da ex-SNAB (Sociedade Nacional de Armadores do Bacalhau) e ex-alunos da Fragata D. Fernando II e Glória costumam, na última Sexta-feira de cada mês, almoçar na Casa CID, nas traseiras do Mercado da Ribeira (Cais do Sodré). No dia 29 deste mês lá estivemos de novo num ambiente bem animado, onde cada vez mais vão aparecendo mais ex-alunos da "Fragata". De início, para além do "Torta" (1) e do "Anão" (2) que também pertenceram à SNAB, comecei por aparecer eu, depois o "Gorilha" (3), o João Guilherme Coelho (4), o "Cão Vadio" (5) e mais recentemente o "Saloio" (6).
Aos poucos, a malta da "Fragata" vai aumentando o número de presenças, o que proporciona um ambiente bastante agradável e um clima de camaradagem bastante salutar entre o pessoal da SNAB e da "Fragata", naqueles breves momentos em que almoçamos juntos, onde cada um conta as suas histórias e experiências muito interessantes passadas na sua infância e outras tantas vividas no mar.
Se houver algum ex-aluno que more nas proximidades (ou não) e pretenda também começar a participar neste breve convívio mensal, é só deslocar-se a Lisboa na última Sexta-feira de cada mês, pelas 12,00 horas à Casa CID (nas traseiras o Mercado da Ribeira - Cais do Sodré) e aí participar no almoço cuja presença será sempre bem-vinda.
Lembra-se no entanto (como estamos em período de férias) que no mês de Agosto o almoço não se realiza, voltando a realizar-se no mês de Setembro que é quando a malta regressa das férias.
Até lá, um abraço e boas férias para todos.
(1) Augusto Fernando Gomes (ex-aluno nº 13) 1963-1966
(2) Joaquim Pereira Lopes (ex-aluno nº 36)
(3) José Moreira Alves (ex-aluno nº 182) 1955-1956
(4) Ex-aluno nº 295 (1967-1975)
(5) António Artur Carvalho (1963-1968)
(6) João Antunes Silva (ex-aluno nº 220) 1965-1969

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Todos a Lagos para a "Assada de Peixe"

Conforme conversa feita há dias através de um e-mail que enviei a todos vós, e porque me encontro de férias em Portimão de 16 a 31 de Agosto, veio-me à ideia realizar uma "Assada de Peixe" entre os ex-alunos da "Fragata" que moram na região Algarvia ou que, habitando noutras localidades também queiram comparecer, ou se encontrem de férias na região na segunda quinzena de Agosto, e assim desta forma podermos conviver mais um pouco e "matarmos outras tantas saudades".
Depois de contactar com alguns ex-alunos para se saber se este encontro tinha viabilidade, qual o local e data indicadas para sua realização, ficou então decidido, depois de conversar em pormenor com o "Grifo", o seguinte:
A "Assada de Peixe" vai realizar-se no dia 27 de Agosto (Sábado) pelas 12,30 horas no Restaurante "Bar da Lota" em Lagos (Junto da Marina de Lagos, conforme mapa que se anexa).
Para sabermos com a devida antecedência quantas pessoas irão comparecer e encomendar-se a quantidade de peixe indicada (sardinhas e carapaus) as inscrições devem ser efectuadas de 16 a dia 23 de Agosto de 2011 (porque O "Grifo" está ausente da sua habitação de 01 a 15 de Agosto) para os seguintes contactos:
António Marques Santos Grifo
Rua do Solão, nº 6
8500-132 Mexiolheira Grande - Portimão
Telefone: 282088776
Telemóvel: 964379920
Vamos lá então a ver se há disponibilidade para nos encontrarmos de novo, e passarmos uma excelente tarde na companhia dos nossos familiares e desfrutarmos de uma bela "sardinhada a saltitar em cima do pão".
Um abraço a todos
Carlos Vardasca
(Braz, Ex-Aluno no 14)

Nota: Clicar em cima do mapa para o visualizar melhor. 

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Fotos enviadas pelo "Alfaçe", "Gato" e "Cão Vadio".

O "Alcantarilha" e o "Alface" na companhia de outros alunos.
O Braz, Nascimento, "Tó Russo" e o "Gato" junto ao rio Sado. Setúbal 1968
O Joaquim, António Carvalho ("Cão Vadio"), "Gato", Braz e Max no jardim em Setúbal. 1968
Texto enviado pelo António Carvalho "Cão Vadio".