domingo, 11 de março de 2012

O meu primeiro dia a bordo da Fragata D. Fernando II e Glória

Foto: O Comandante Alberto Campos, ladeado pelo Tenente Alves e outro oficial, a bordo da Fragata D. Fernando II e Glória. 1960


Todos nós, ao longo da nossa infância, fomos criando em nosso redor uma imagem à semelhança dos nossos heróis, mesmo que em batalhas nunca dantes travadas. Quantas vezes, à saída dos cinemas, e inflamados com a destreza do "rapaz" do filme, nos revíamos naquela personagem, e nos sentíamos tão capazes de aplicar aquela ficção que não se encaixava numa realidade que momentaneamente fingíamos desconhecer. Quando fui para a Fragata D. Fernando II e Glória tinha apenas 13 anos, e vivi um desses momentos, ao ficar tão fascinado com a beleza daquela nau, "última das Índias".
Era uma criança que se imaginava num barco de piratas, pronto a travar outras tantas batalhas contra a pobreza que me fizera seu tripulante. Desde os canhões alinhados como se ainda espreitassem o inimigo, aos bacamartes e armas de todo o tipo que enfeitavam o seu interior, tudo me recordava a façanha dos corsários que sempre tentei imitar. Não fosse o seu comandante (Sr. Alberto Campos, Capitão de Mar e Guerra) interromper aquele sonho que se previa prolongar naquele primeiro dia a bordo, "até que o meu imaginário se dispersasse não sei por quantas ilhas à procura de um tesouro que não existia":
Então rapaz! Estás a gostar do teu primeiro dia a bordo?
Como muito envergonhado que era, em vez de lhe responder comecei a chorar. De imediato, senti-me envolvido por uns braços fortes que, pelo carinho e afecto que transmitiram, me fizeram esquecer a ausência do aconchego familiar, "como se a fita do filme se tivesse partido e a realidade recomeçasse nalgumas cenas mais à frente".
Foi assim desta forma que vivi o primeiro dia a bordo daquela velha Nau, feita Navio Escola para meninos deserdados de afectos, "mas feitos homens iguais a tantos outros, que mais tarde souberam moldar a vida com as ferramentas ali ensinadas".
Era de facto muito bela, e por isso ainda hoje me sinto órfão daquela nau.
Carlos Vardasca
(Braz, ex-Aluno nº 14 – 1963-1978)
Nota: Pequeno texto editado em 18 de Setembro de 2007

quarta-feira, 7 de março de 2012

A Fragata D. Fernando II e Glória na imprensa

(...) "A D. Fernando" é considerada pelo "Cols Bleus", revista da marinha francesa, edição nº 2073, de 24 de Março de 1990, como o 8º navio de guerra mais antigo do mundo e consta no "Internacional Register Of Historic Ships", publicação editada com o patrocínio do "World Ship Trust" - organização com sede em Londres, que tem como objectivo primário elaborar um registo internacional de navios e de outros tipos de embarcações históricas ainda existentes, já preservadas e em exibição ou merecedoras de recuperação, de restauro e exposição pública (...)

In: Revista da Armada nº 305, páginas 17,18,19 e 20. Janeiro de 1998

sábado, 28 de janeiro de 2012

A Última Nau da Índias ainda está "encafuada" em Cacilhas

Quadro de Roger Chapelet (1845) Edição do Museu de Marinha. Colecção Lusitânia.

Como ex-aluno da Fragata D. Fernando II e Glória, permitam-me este desabafo. Das várias vezes que visitei aquela velha NAU, sinceramente não gostei nada de a ver "encafuada" há tanto tempo entre muralhas, nem da degradação que se vai notando na sua estrutura assim como um certo abandono que se vai observando na sua manutenção, o que não se verificou (como é óbvio e percebe-se porquê) nos tempos "áureos" da Expo 98.
Em minha opinião, também penso que a doca onde a Fragata está "ancorada" não é o local mais apropriado nem o mais digno pa
ra que uma Nau daquela beleza e com a sua história seja mostrada ao público numa perspectiva mais abrangente.
Em vez de estar meio "escondida" entre muralhas, sou da opinião de que a Fragata D. Fernando II e Glória deveria estar mais visível e exposta naquele que é o grande anfiteatro da cidade de Lisboa, o rio Tejo, onde a sua visibilidade emprestaria às suas águas todo o fascínio que nos desperta aquela que foi a última NAU da carreira das Índias.
Ancorada alternadamente junto à Torre de Belém ou no Parque das Nações, podendo por vezes, temporariamente, ficar encorada ao largo em frente ao Terreiro do Paço, de certeza que teria uma maior visibilidade e seria um excelente cartão de visita para quem visitasse o rio Tejo, imprimindo nas suas águas o reflexo das epopeias marítimas, fazendo dela um bonito postal ilustrado de que o nosso país se orgulharia de o mostrar ao mundo.
Aqui fica a sugestão, e já agora gostaria de saber a opinião de outras pessoas sobre este assunto.

Carlos Vardasca
(Braz, ex-aluno nº 14 de 1963 a 1968)

sábado, 21 de janeiro de 2012

Um pouco de história sobre a Fragata D. Fernando II e Glória (2)

(...) Mais uma fase se seguiu, após a Segunda Guerra Mundial, quando a bipolarização política mundial substituiu a ordem dos impérios. E uma quinta e última fase, em curso e ainda não baptizada, mas que não será, certamente, o "Fim da História" proposto por Francis Fukuyama, nasceu em 1989, com o fim do confronto Leste-Oeste. É porém, a terceira fase que interessa considerar, pois foi nesse período histórico que decorreu a vida operacional da Fragata D. Fernando II e Glória.
O interesse português pela exploração das terras sertanejas teria tido como ponto de partida a viagem do Doutor Francisco José de Lacerda e Almeida, governador dos Rios de Sena, que partiu de Tete em Julho de 1798 e atingiu a corte do Muata Cazembe, bem no interior do continente, onde morreu. Já com sucesso, mas pouco divulgada, foi a viagem do major Correia Monteiro e do capitão Pedroso Gamito, com 420 homens, também de Tete a Cazembe; não conseguindo ultrapassar o território deste chefe, Monteiro enviou um mensageiro com uma carta para o governador de Luanda, que só chegou ao seu destino sete anos depois - mas chegou.
Com a duração de um ano, esta expedição terminou em 1832, exactamente a data em que a Fragata D. Fernando II e Glória foi lançada à carreira, em Damão.
Muitas outras expedições se seguiram, num esforço corajoso e persistente, com o duplo objectivo de satisfazer a curiosidade científica e de proteger os direitos soberanos sobre terras que historicamente eram portuguesas.
António Francisco Ferreira da Silva Poto, na sua segunda viagem, encontrou Livingstone, em 1852, no ano em que a Fragata D. Fernando II e Glória realizou a sua primeira missão, a partir do porto de Lisboa. E foi ainda  Fragata que numa outra viagem, em 1854, recolheu em Moçambique 13 dos africanos de Silva Porto que haviam realizado a travessia e os trouxe de regresso a Benguela (...)
(...) Não se travaram combates navais, mas frequentemente as forças do Exército e da Marinha desembarcados tiveram necessidade de combater em terra, na defesa dos direitos soberanos portugueses. Era frequente e importante o transporte de homens e de material, razão pela qual quase todos os grandes navios de guerra alguma vez armaram em charrua.
Uma das raras operações iniciadas por uma acção naval foi a reocupação de toda a costa Norte de Angola, desde Ambriz até ao paralelo 5º 12' sul, e das margens do rio Zaire até às primeiras cataratas; a primeira fase ocorreu de 15 a 17 de Maio de 1855 e teve por navio-chefe a Fragata D. Fernando II e Glória (...)
(...) Em 1842, um ano antes do lançamento da Fragata à água, Portugual e a Ingalterra assinaram um tratado que punha fim à escravatura. É indiscutível o valor humano e social desta atitude, mas a sua aplicação não foi pacífica, apesar de Portugal já ter tomado a decisão unilateral da abolição da escravatura em 10 de Dezembro de 1836, com a publicação de um decreto de Sá da Bandeira nesse sentido.
Quando, em 20 de Novembro de 1857, se deu o arresto da barca francesa Charles et George, do comando do capitão Mathurin Rouxel, e que fora encontrada na baía de Condúcia, Moçambique, com 110 escravos, a Fragata D. Fernando II e Glória estava em Goa, numa das suas viagens pelo Índico (...) 

In: "D. Fernando II e Glória. A Fragata que nasceu das cinzas" (páginas 48, 49, 50 e 51) de António Emílio Ferraz Sacchetti. Edição dos CTT. 1998.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Ex-Fragatas que participaram na Guerra Colonial. Uma história de vida (1)

O José Alves a bordo de um navio de guerra na Guiné (1966-1967) e em destaque uma foto sua como Sargento Fuzileiro
O José Alves (o primeiro a contar da esquerda) no restaurante o "CID" em Lisboa (Cais do Sodré- Mercado da Ribeira) onde alguns ex-fragatas se juntam com alguma regularidade na última Sexta-feira de cada mês, na companhia do Augusto ("Torta") Braz e do "Caminha". Lisboa 2011
O José Moreira Alves (fardado de branco e de bengala na mão) na cerimónia da entrega das condecorações no dia 10 de Junho de 1968 realizada no Terreiro do Paço em Lisboa. Foto editada pela Revista “FLAMA” em 21 de Junho de 1968. Em destaque uma foto sua como aluno da Fragata D. Fernando II e Glória.
José Alves como Aluno Marinheiro (1956) e mais tarde  na Guiné no posto de Sargento.1966

"A ironia do destino"
e alguns detalhes que me vieram à memória sobre a minha vida.
 Por informação que me foi dada, nasci na aldeia de Picoto, situada numa serra localizada na actual freguesia de Golpilheira no Concelho da Batalha, distrito de Leiria.
Dei por mim com a idade de 11 meses, a viver com os meus padrinhos de baptismo (os quais foram os primeiros a quem eu tratei por pais) numa aldeia chamada Andreus na freguesia de Barreira no distrito de Leiria.
Porém, foi aqui que cresci, vivendo num ambiente bastante pobre, com bastantes dificuldades ao ponto de andar descalço e com bastantes carências. Em todo o caso, era neste ambiente que efectivamente eu me sentia feliz, brincando de toda a maneira, criando eventos e fazia os outros brincar juntando-os a mim.
Lamentavelmente muitas das vezes tudo isto era “às fugidas”, pois tinha algumas tarefas destinadas, para além da escola primária que frequentava que ficava à distância de cerca de seis a sete quilómetros.
Naquela altura para mim tudo era na desportiva. Mais tarde, quando eu já era explorado nos trabalhos do campo quis aprender um ofício, mas como não me deixaram, comecei a ser bastante rebelde. Comecei por fazer diabruras incitando os outros a envolverem-se em determinadas desordens, e fazia-me de “comandante militar organizando grupos de guerrilheiros instruindo-os a ordem militar”.
Mais tarde, com 15 anos de idade, encontrando-se a minha mãe a servir em Lisboa em casa da família do General Vassalo e Silva, ela chama-me para ir para Lisboa, pois disse-me ter eu lá um emprego numa tipografia em Alvalade, propriedade de um senhor seu conhecido.
Continuando com a “ironia do destino”, envolvi-me em picardias com um dos meus amigos do dia-a-dia até nos envolvermos à pancada.
Devido à minha constante rebeldia, a minha mãe pediu aos seus patrões se poderiam interceder para que eu fosse internado numa instituição do Estado, e lá fui eu então admitido na "Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória" onde fiquei até 1956.
Em 23 de Novembro de 1956 fui recrutado para o quartel de "Alunos Marinheiros" em Vila Franca de Xira onde frequentei a recruta.
Ali me senti sempre um privilegiado pois era sempre tratado por "Sr. Aluno", onde tinhamos direito a suplemento especial alimentar, e recebiamos o pré[1] superior aos recrutas. Ingressei na especialidade de Artilheiro tendo sido destacado para o Alfeite na Escola de Artilharia para frequentar o respectivo curso.    
Depois de ter andado embarcado em alguns navios, por último embarquei no Contratorpedeiro “NRP Lima", onde permaneci 18 meses estacionado na doca seca na Rocha Conde de Óbidos.
A 18 de Dezembro de 1958 embarco nomeado para uma comissão de serviço na Índia. Saio a barra embarcado no Paquete “Pátria" parando em todos os portos com destino a Lourenço Marques[2]. Nesta cidade permaneci durante cerca de 3 meses aguardando o navio "Aviso de 2ª classe” “NRP João de Lisboa" que íamos render.
Preparado o navio para a viagem, lá partimos em direcção à Índia onde percorri todo o território incluindo Ilhas e as partes de "Dadrá” e de “Nagareveli".
Estive destacado em três Lanchas de Fiscalização (Antares, Vega e Sirius), e posteriormente no Aviso de 1ª classe “NRP Afonso de Albuquerque".
Onde permaneci mais tempo foi nos navios "NRP João de Lisboa", "NRP Antares" e no "NRP Afonso de Albuquerque", tendo regressado a Lisboa em Março de 1961 a bordo do paquete “Índia" que fez rota através do Canal do Suez.
Chegado ao quartel do Corpo de Marinheiros fui frequentar novo curso na Escola de Artilharia e acabado o curso fui promovido a Marinheiro Artilheiro, embarcando de seguida para bordo de um Caça Minas e depois para um Draga-Minas.
Decorrido algum tempo, em 1962 resolvi inscrever-me para o curso de Fuzileiros Especiais, ingressando no 3º curso na Escola de Fuzileiros.
Com 22 anos de idade e prestes a fazer os 23, terminei o curso com aproveitamento, ficando algum tempo a dar instrução nos novos cursos, sendo nomeado para integrar o Destacamento de Fuzileiros Especiais Nº 4 com destino a Angola, embarcando em Fevereiro de 1963 até Março de 1965.
Fomos de avião e regressámos no "NRP São Brás". Nesta comissão houve momentos de vária ordem; ― Passou-se de bom, menos bom e de mau, e de alguns desses momentos ficaram-me de tal forma algumas recordações e marcas para toda a vida que passados tantos anos ainda hoje convivo com eles.
Um dos momentos menos dramáticos que recordo, foi ao regressarmos pelo amanhecer de uma patrulha de bote, saltando eu do mesmo com a G3 em posição em perseguição de uma "Pacaça"[3], quando ela resolve investir na minha direcção ao mesmo tempo que a arma se dispara, tendo caído ao meu lado.
Outro foi numa operação conjunta com um Grupo de Combate do Exército. Nessa operação fomos transportados em botes dos Fuzileiros seguindo pelo rio e posteriormente desembarcados para terra.
Durante o desencadear da operação, onde se fizeram alguns prisioneiros, um elemento do exército resolve agarrar um deles que era um pescador nativo afecto à UPA[4], tendo pedido ao Alferes para o levar para o interior da mata. De regresso à nossa presença, o soldado, glorificando-se do seu acto, exibia sem qualquer pudor os órgãos intestinais do guerrilheiro perante todos nós.
Como manifestação da sua “heroicidade” e manifestando uma total ausência de sensibilidade, foi com a mesma faca com que matou o guerrilheiro que abriu as latas e comeu a sua ração de combate. Como seria de esperar, passado pouco tempo tivemos de imediato a resposta do lado dos nativos sendo as nossas tropas atacadas com intenso tiroteio por parte dos guerrilheiros da UPA. Esta situação não se tornou mais grave porque sendo eu o responsável pelo grupo dos Fuzos tomei posição ordenada.
De regresso à Metrópole, fui frequentar o curso de sargentos em 1965/1966. Depois de promovido a sargento, fui nomeado para mais uma comissão de combate mas desta vez na Guiné, embarcando no navio "NRP Diogo Gomes" integrando o Destacamento de Fuzileiros Especiais Nº 7 de 1966/1968. Aí passei por várias facetas no meu percurso, tendo participado em várias operações de combate em zonas controladas pelo PAIGC[5].
Em Junho de 1967, quando me encontrava emboscado com o meu Grupo de Combate algures a Norte do rio Cacheu, ao amanhecer entrámos em contacto de fogo cruzado com o IN (PAIGC), tendo eu durante o combate sido atingido com um tiro no pé direito, tendo ficado imobilizado acabando por ser evacuado de helicóptero para o hospital de Bissau[6].
Em Julho fui evacuado para o Hospital da Marinha em Lisboa onde fui operado por duas vezes.  Ainda em convalescença no Hospital, fui convocado para estar presente nas cerimónias do dia 10 de Junho de 1968 (dia de "Camões e da Raça") no Terreiro do Paço, para receber a condecoração da medalha de "Serviços Distintos com Palma".
Terminada a convalescença no hospital, regressei à Unidade do Serviço, tendo passado à reforma extraordinária por incapaz ao serviço do activo em Maio de 1971, passando mais tarde ao estatuto de Deficiente das Forças Armadas.   
Depois de ter saído da Marinha, como o dinheiro que recebia não era muito, fui empregar-me na Lisnave[7] onde permaneci cerca de 29 anos. Aí frequentei o curso de soldador no qual trabalhei durante 6 anos, e os outros 23 trabalhei como informático no Serviço de Pessoal.
Hoje com 72 anos de idade, estou na situação de Reformado como Deficiente das Forças Armadas, no posto de Sargento-Mor Fuzileiro Especial.
É este o resumo de “um pedaço da minha vida”.
 José Moreira Alves
Ex-aluno da Fragata D. Fernando II e Glória
(nº182 - 1955-1956)
13 de Janeiro de 2012







[1] Salário militar.
[2] Actual cidade de Maputo (Moçambique).
[3] Mamífero ruminante da família dos bovídeos, mais conhecido por búfalo-africano.
[4] União Popular de Angola (UPA) Grupo de guerrilheiros que combatiam em Angola contra o exército português.
[5] Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) Grupo de guerrilheiros que combatiam na Guiné contra o exército português.
[6] Capital da Guiné no período colonial.
[7] Estaleiro Naval situado na cidade de Almada, actualmente desactivado.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

"A nossa tripulação sofreu uma baixa"

António Grifo (também na foto em destaque) na companhia de ex-fragatas na "Assada de peixe" realizada em Lagos no dia 27 de Agosto de 2011.
António Grifo (ao centro) com 12 anos de idade, na companhia do "Alcantarilha" e do "Alfaçe".

O nosso adeus ao companheiro “Grifo”
Há coisas que não estão na nossa vontade em determinar a nossa presença entre aqueles que mais queremos, ou perpetuar a amizade que nutrimos para com os nossos amigos que caminharam por trajectos sinuosos de uma vida um pouco conturbada. A vida por vezes prega-nos inesperadamente uma partida para a qual não estamos preparados, ao ponto de nos roubar os momentos de felicidade que pensávamos viver eternamente, embora também não tivéssemos, tendo em conta as circunstâncias da vida, os cuidados em a preservar.
O nosso companheiro “Grifo”, de figura um pouco franzina mas aparentando gozar de uma felicidade transbordante, foi mais um de entre tantos os que não conseguiram transpor “aquela curva da vida”, que decide aquilo que dizem ser o nosso destino.
A vida do nosso companheiro “Grifo” foi sempre desde muito cedo muito atribulada, a partir do momento que, com apenas 13 anos de idade conseguiu transpor uma vigia e esconder-se dentro do batelão que abastecia a Fragata D. Fernando II e Glória de água e fugir daquela velha Nau, por temer represálias de um dos sargentos por lhe ter atirado à cabeça uma barra de ferro.
Desde esse dia, ninguém mais soube do paradeiro do “Grifo” dado que nunca mais regressou à instituição, sabendo-se mais tarde que foi parar a Moçambique onde se empregou nos Caminhos de Ferro de Moçambique, inicialmente como fogueiro e mais tarde como maquinista, não deixando no entanto de em ambas as profissões e durante alguns anos, de encardir os seus pulmões com a fumarada negra e espessa do carvão queimado que servia de força motriz àquelas antiquíssimas locomotivas.
Depois de alguns anos em África e de regresso a Portugal, empregou-se numa pedreira, empresa de corte e tratamento de mármores (onde trabalhava sem qualquer equipamento de protecção) o que também não era nada saudável e em nada veio a contribuir para restabelecer e regenerar o seu sistema respiratório, de onde mais tarde veio a sofrer as suas consequências.
Isto tudo para vos dizer que o nosso companheiro António Marques Santos Grifo (“Grifo”) de 66 anos de idade, nascido em 8 de Fevereiro de 1945, ex-aluno da Fragata D. Fernando II e Glória com o número 244, tendo entrado em 1955 e saído em 1959, natural de Mexilhoeira Grande, Lagos (Portimão), ex-combatente na Guerra Colonial, faleceu no passado dia 29 de Dezembro de 2011, vítima de repentina doença pulmonar.
A última vez que estive com ele foi no verão deste ano, tendo sido ele o organizador da “Assada de Peixe” no dia 27 de Agosto em Lagos, que serviu de pretexto para que os ex-fragatas residentes na zona do Algarve se encontrassem em breves momentos de convívio, onde também o saudoso “Grifo” teve a amabilidade de oferecer à minha filha Mafalda uma colecção de búzios do mar, que a mesma disse, ao saber do seu falecimento, ir continuar a preservar como prova da sua singela gratidão.
Para quem não teve conhecimento, o funeral do nosso companheiro “Grifo” realizou-se na passada Sexta-feira, dia 30 de Dezembro pelas 17,30 horas, tendo o seu corpo sido transportado para o cemitério de Lagos.
A todos os seus familiares e amigos e em nome de todos os ex-alunos da Fragata D. Fernando II e Glória, “Cesto da Gávea” envia os seus sentidos pesamos, e esteja ele onde estiver aqui fica o nosso abraço solidário.
Carlos Vardasca
(Braz, ex-aluno nº 14. 1963-1968) 
30 de Dezembro de 2011 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Uma noite na aldeia (conto)


Já se previa um inverno rigoroso. O manto de neve que cobria todo o distrito de Chaves há muito que também branqueava os campos em redor da aldeia de Moure, o que era sempre motivo de preocupação para os seus habitantes.
Os pastos rareavam. As cabras que era hábito a Gracinda[1] levar para o pastoreio já raramente saíam do estábulo, e o telhado coberto de neve já não fumegava pelos intervalos das placas de ardósia mas apenas pela velha chaminé, onde o odor daquela sopa gordurosa juntava à mesma mesa a frágil adolescência de Gracinda e os restos de saudade que consumiam a mãe, que ainda chorava a ausência do marido em parte incerta, e a angústia de quem mal tinha forma nem como gerir os parcos dinheiros que moldavam a sua pobreza.
Bastante agasalhada, acabada de chegar do forno comunitário da aldeia onde fora buscar o pão amassado pela Ana dos Currais, fascinada por tanta iluminação e depois de transpor o arvoredo que circundava a casa de quem, sendo médico em Lisboa apenas ali vinha ficar em épocas festivas, Gracinda abeirou-se de uma das janelas e ali ficou estupefacta, contemplando maravilhada a enorme árvore de natal e um amontoado de papéis de embrulho já rasgados que se espalhavam por toda a sala, depois de terem envolvido o que era agora o fascínio das crianças daquela numerosa e abastada família.
Já passava da meia-noite e a Gracinda antes de regressar a casa ainda foi dar de comer ao gado, acariciar uma das cabras que estava prestes a ter cria e espalhar algum feno pelo chão do estábulo para o tornar ainda mais confortável para os animais, tendo tempo ainda de passar pela casa da vizinha Cordoeira, certificando-se se o lume da lareira estava apagado, aconchegar-lhe os cobertores ao corpo e fazer-lhe um pouco da companhia que à muito se viu privada desde que o marido, operário da construção civil, falecera de forma trágica num acidente de trabalho num dos bairros de Paris.
Sozinha com a mãe, no meio de quatro paredes iluminadas por uma candeia de azeite que projectava as suas sombras na rudez das pedras de granito, Gracinda olhava inerte para a lareira e para o caldeiro de onde fumegava o mesmo odor que há muito lhe dava o sustento.
Enquanto a mãe Florinda[2] ainda esbracejava num alguidar para amassar o resto da massa dos cuscurões, Gracinda, de olhos abrilhantados pelo lume da lareira, lembrava a enorme árvore de natal da casa do médico que não lhe cabia dentro do casebre, imaginando-se criança e a brincar com os brinquedos que não vira mas que idealizava bonitos, a avaliar pela beleza dos papeis de embrulho que agora jaziam amarrotados num dos caixote do lixo.
Atenta que estava aos sons que viessem do outro lado das paredes da casa, ao menor sinal que lhe soou Gracinda correu apressada para o estábulo onde se iniciara o parto de mais um caprino, ajudando ao seu nascimento, aligeirando as dificuldades da velha cabra que soltava bramidos de dor.
Exausta, e depois de ter avisado a mãe que iria ficar no estábulo nessa noite para vigiar o animal que acabara de nascer, Gracinda, sentindo-se frágil mas inundada de felicidade, enroscou-se numa velha manta e aconchegou-se junto do pequeno cabrito de quem grande parte da noite não desviou o olhar, acariciando-o com a mesma ternura como se fora um brinquedo que nunca recebera, acabando por adormecer enquanto recordava todos momentos em que nunca tivera tempo para brincar.
No dia seguinte e de regresso ao trabalho do campo na companhia da mãe, Gracinda mais uma vez acabou por verificar que afinal tudo estava tal e qual como dantes, apesar do pároco da aldeia anunciar todos os anos que o mundo iria mudar “com o nascimento do menino”.

                                                                                 
Carlos Vardasca
21 de Dezembro de 2011

In: “Tempos Inquietos 2”, páginas 63, 64. 21 de Dezembro de 2008.


[1] Gracinda da Conceição Correia Braz Vardasca (minha mãe).
[2] Florinda Correia (minha avó materna)